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Casa Virtual de Estela Willeman

Este paper foi apresentado no IX congresso Internacional de Cultura Iorubá,
na Uerj na mesa: O poder e o feminino na tradição Iorubá.
 
Tratar o poder feminino é situá-lo  nas relações vivenciadas no 
contexto da 
religiosidade da matriz africana iorubá implica tomar as relações de 
poder 
onde o gênero feminino é designante do seu exercício e procurar 
decifrá-las 
. Ou seja, o tema “O poder e o feminino na tradição iorubá” remete à 
busca 
do desvelamento dos efeitos da adesão religiosa na construção da 
subjetividade das mulheres na vivência herdeira dessa matriz africana. 
A priori, a conjuntiva o poder e o feminino já coloca em si um desafio: 
trata-se de duas generalizações. Por outro lado, tratar o poder e o 
feminino 
só tem sentido quando se articulam as temáticas a uma totalidade que 
lhes dá 
significado; isto é, o sentido do poder feminino depende do uso que 
dele é 
feito, em que espaço e com que significante se desenvolve no contexto 
da 
memória coletiva de um determinado grupo. 
Falar sobre a temática da tradição cultural iorubá é trazer à tona a 
memória 
ancestral de um povo, mas é também, no tempo presente, andar na 
contra-mão 
da ideologia dominante a serviço dos interesses históricos das elites – 
dos 
homens, ricos e brancos. Afinal, como alerta Ianni (1987: 110-111), é 
conveniente que os negros não saibam como são, como vivem e de que 
forma 
participam da economia e da cultura na sociedade atual. 
Na sociedade brasileira contemporânea, as evidências empíricas mostram 
que 
seres humanos masculinos e femininos não ocupam o mesmo lugar na 
sociedade. 
Os indivíduos são definidos, em termos de lugar/imagem – com sua 
respectiva 
distribuiçao de poder – , com base nas condições de pertença de classe, 
étnico-racial, de gênero, cultura, religião e outros quesitos, que dão 
conteúdo e significado à sua existência social. A distrubuição de poder 
decorrente da interconexão desses quesitos modela os seres, determina 
modos 
de ser e pensar, institui uma geografia social.  Esta cartografia está 
ancorada, por sua vez, em desigualdades construídas historicamente 
através 
de representações  culturais. Assim, a geografia do poder institui 
formas de 
simbolizar os seres e todas as coisas do mundo, bem como também 
determina 
práticas sociais. Ao mesmo tempo, essas práticas e formas de 
pensar/sentir o 
mundo produzem efeitos nessa complexa teia de poder na estrutura da 
sociedade. Em relação à imagem e ao papel do feminino e do poder 
feminino na 
sociedade, os diferentes contextos sócio culturais vêm fornecendo 
distintos 
elementos, através dos tempos; elementos esses, fundantes do processo 
de 
formação de identidades sociais  e da própria memória coletiva. 
Um desses contextos de elementos fundantes no processo de construção de 
identidades, em termos dos valores que informam o lugar do feminino nas 
relações de poder, é a tradiação iorubá, recriada nos terrritórios  das 
comunidades de terreiro no Brasil. 
Como alerta Sodré (1999:14), “nenhum valor é neutro, pois espelha as 
convicções e as crenças de um sistema particular”. Dessa forma, as 
referências do feminino na tradição iorubá têm uma significação 
estabelecida, que atribui valor e padrões de conduta. 
Como este processo é inacabado, está em constante construção e 
recriação, ao 
mesmo tempo em que estabelece conexões com as “referências de fora” e 
“os de 
fora” das comunidades de terreiro – os Ilês (casas de santo, 
candomblés, 
roças, etc). 
A geografia dos terreiros expressa, pois, uma ocupação sócio-política, 
uma 
vez que os Ilês são casas religiosas, mas também casas de moradia, de 
acolhimento, assim como de prestação de serviços. Aí, as relações de 
parentesco -consagüíneo e religioso-, articuladas às relações 
inter-étnicas 
e de classe, modelam e regulam motivações de relações, não só 
religiosas, 
mas afetivas, econômicas e ético-políticas. Enfim, gestam 
sociabilidades 
Através da repetição da oralidade e de práticas vivas que habitam a 
memória 
das mulheres do povo-de-santo , as várias expressões do exercício do 
poder 
feminino hoje ressignificadas nos territórios dos Ilês constituem elos 
entre 
o presente e o passado, elos entre o mundo contemporâneo real e a 
transcendência. 
Os terreiros de tradição iorubá podem ser considerados territórios 
contraditórios, mas tendencialmente plurais, democráticos, dinâmicos, 
que 
articulam tradição e contemporaneidade, norma/interdição e liberdade. 
Acima 
de tudo, trata-se de espaços de poder atravessados por significados 
emblemáticos de identificação e de sentimento de lealdade, inclusão (de 
todos os excluídos), pertencimento, com posibilidade real de 
reafirmação da 
negritude .  Assim sendo, pode-se inferir que a comunidade de terreiro 
é um 
território potencialmente democrático. Exatamente porque é um 
acolhimento, 
possibilita a incorporação do outro, do excluído, do diferente, do 
discriminado: o pobre, o desempregado/subempregado, a criança, o 
homossexual, o negro, a mulher. Sendo um locus de afirmação da 
negritude, 
incorpora também o branco. Logo, os Ilês são territórios com vocação  
democrática; espaços plurais que acolhem, não sem tensões e conflitos, 
diferentes sujeitos sociais: negros/não-negros, 
homens/mulheres/crianças, 
indivíduos de diferentes orientaçãoes sexuais e pertencentes a 
distintas 
frações de classe, inclusive muitos discriminados que não teriam lugar 
em 
outras práticas religiosas. 
No candomblé, os segmentos subordinados da sociedade experimentam a 
possibilidade de ascensão social, e de desenvolvimento de uma nova 
sociabilidade, metamorfoseando seus lugares de desvantagem social em 
posicionalidades de prestígio, geralmente ligadas à hierarquia 
religiosa. Aí 
as mulheres, inclusive as negras, ocupam altos cargos, diferentemente 
do que 
se verifica nas demais religiões. 
Além disso, predominantemente, sobretudo nas casas tradicionais 
brasileiras, 
a organização sócio-religiosa nesses espaços se estrutura a partir da 
lógica 
matrilinear, sendo a figura mais importante na hierarquia religiosa a 
mãe-de-santo ou iyalorixá (iyá = mãe). Nesse sentido, um fato 
importante a 
observar refere-se à possibilidade de a maternagem ser exercida nessa 
tradição, não necessariamente atrelada à vinculação biológica. Chama 
atenção 
o fato de que, até nos dias atuais, qualquer pessoa do gênero feminino 
possa 
desempenhar, na comunidade de terreiro, tarefas relativas ao cuidado 
com as 
gerações imaturas – dar banho, colocar para dormir, brincar, passar 
oralmente ensinamentos (de caráter religioso ou não), ensinar a cantar 
e 
dançar, dar comida e até amamentar – ainda que não exista vínculo 
consangüíneo. Ou seja, nesse território o ato de maternar é generizado, 
mas 
não biologizado. Assim, o maternar é um processo sócio-cultural e 
político 
de caráter eminentemente coletivo, concebido aqui como maternidade 
extensiva. Assinale-se, ainda, que o mesmo processo pode ocorrer, 
embora em 
menor escala, no caso da paternagem. 
A historiografia das primeiras casas-de-santo no Brasil mostra que foi 
a 
mulher de tradição iorubá que lançou a semente, germinou e pariu a 
reinvenção da religiosidade africana em continente brasileiro, 
possibilitando a criação do candomblé. Esse protagonismo se perpetuou 
através da chefia espiritual das Casas e da sua presença real em toda a 
hierarquia religiosa. 
As primeiras dirigentes viabilizaram a possibilidade de nos Ilês se 
desenvolverem laços afetivos, bem como de solidariedade 
econômico-política e 
étnica, além de ali fornecerem à população afro-descendente em geral a 
oportunidade de um espaço de luta contra a escravidão e de busca de 
solução 
para diferentes problemas. Nesse sentido, esses territórios negros 
podem ser 
considerados verdadeiros quilombos, espaços de preservação do capital 
simbólico da africanidade. A força política dessas sacerdotisas e dos 
seus 
terreiros assegurou no Estado Novo o reconhecimento do direito ao 
culto, bem 
como levou órgãos do Patrimônio Histórico Nacional, anos mais tarde, a 
reconhecer sua importância e a tombar várias Casas, como a Casa Branca 
do 
Engenho, o Ilê Axé Opô Afonjá e o Terreiro do Gantois, na Bahia, dentre 
outros. Mas essa força política tem remotas raízes, como demontra 
Silveira: 
“na organização dos Reinos fons e nagô-iorubá, as mulheres 
desemprnharam um 
papel ativo, eram elas que administravam o palácio real, assumindo os 
postos 
de comando mais importantes, além de fiscalizarem o funcionamento do 
Estado.” (Silveira, 2000:88). 
No âmbito do Estado africano, os interesses das mulheres, em especial 
das 
mulheres comerciantes, eram representados politicamente pela figura da 
Iyalodê . 
Nas sociedades ocidentais, ancoradas no cartesianismo binário, na 
lógica 
dual, bipolar, o feminino é representado por oposições simples, ligadas 
ao 
par bem/mal: santa-pura-esposa-mãe versus 
puta-impura-devassa-dissimulada, 
isto é, a negação da representação esposa/mãe. 
Na cosmogonia ocidental, de inspiração judaico-cristã, as referências 
são as 
representações ligadas às figuras de Eva e Maria, portadoras de 
atributos 
reforçadores da heteronomia, da subalternidade e do controle sexual  
sobre 
as mulheres. Aí, o corpo é tratado como impuro e de forma cindida, ou 
seja, 
apartado da dimensão ética e espiritual. 
Na cosmogonia iorubá, as versões do feminino, plasmadas no discurso do 
mito 
, estão referidas ao poder das Iyagbás – Oxum, Oiá, Iemanjá, Nanã, Obá, 
Euá 
– e das Iyá mi – as grandes mães ancestrais, senhoras dos pássaros da 
noite, 
cultuadas pela sociedade feminina secreta Geledé. Nessa visão, o corpo 
é 
sacralizado, templo; corpo instituinte do poder transcendental, que 
inscreve 
a subjetividade no mundo real. Assim, o cuidado com o corpo está, 
portanto, 
diretamente ligado ao cuidado com a dimensão espiritual. O exercício da 
sexualidade, em qualquer orientação, não é analisado de forma 
moralista/conservadora, mas como celebração de vida e manifestação de 
força 
vital (axé). Como demonstrou Landes (1967), não há restrições quanto às 
escolhas e condutas sexuais. 
A análise do mito da cosmogênese ajuda a lançar luzes sobre o complexo 
valorativo basilar da tradiçao iorubá: a idéia de totalidade, 
complementariedade e interdependência. Obatalá (princípio masculino) e 
Odudua (princípio feminino) aparecem no mito da criaçao da existência 
em uma 
união complementar, representados por uma cabaça, onde a parte superior 
representa o masculino e a infeiror o feminino, esta última tendo a 
tarefa 
de impulsionar a continuidade da existência. Nesse sentido, o poder 
feminino 
se expressa na sua capacidade de dinamização e expansão do arsenal de 
valores e significados contidos nas práticas sociais cotidianamente 
vividas 
na religiosidade. 
A história das mulheres negras no continente africano põe em relevo seu 
protagonismo na economia de trocas de mercadorias, sendo sua presença 
maciça 
nos mercados. Ainda hoje, sobretudo as mulheres de pertença étnica 
iorubá, 
exercem atividades sócio-ocupacionais em espaços coletivos ligados ao 
comércio de tecidos e roupas ou de alimentos, ou ainda, montam pequenas 
vendas de legumes, verduras, frutas e iguarias nos tabuleiros. Vale 
ressaltar, como também destaca Bernardo (2002:28; 2004:81), que a renda 
decorrente destas atividades não se caracteriza como complementar à do 
conjuge, uma vez que elas compram os produtos provenientes da colheita 
do 
marido, os vendem, restando a elas o lucro. Ou seja, historicamente, as 
mulheres negras, antes de trazidas à força para as terras brasileiras, 
já 
tinham um espaço sócio-econômico reconhecido enquanto comerciantes e 
negociadoras (Verger, 1985: 138). A vivência desta experiência lhes 
conferiu 
saberes na esfera da negociação e da barganha, atributos que lhes foram 
fundamentais enquanto estratégias de sobrevivência após a diáspora , no 
âmbito da luta pela sobrevivência para se manterem vivas no contexto da 
dominação escravocrata e na luta pela manutenção das tradições. Como o 
comércio é uma atividade inserida no contexto e da comunicação, ali 
vivenciaram vários tipos de troca: de mercadorias (bens materiais), mas 
também de informações, inclusive de elementos culturais de outras 
etnias 
(bens simbólicos, espirituais).Através do trabalho no mercado, as 
mulheres 
se lançavam na arena pública, construindo-se e reconstruindo-se como 
sujeitos políticos, dotados de liberdade e autonomia. Esse traço da 
tradição 
iorubá explica, em grande parte, o fato de as mulheres negras terem 
sido, no 
Brasil, as primeiras a ingressar no mercado de trabalho. Após a 
abolição 
oficial da escravidão, quando as mulheres brancas encontravam-se 
aprisionadas no espaço da domesticidade, era significativa a presença 
de 
mulheres negras ocupando a cena pública, vendendo nos tabuleiros – eram 
as 
famosas quituteiras, negras de ganho que até hoje compõem a geografia 
humana 
e econômica de algumas cidades, como Salvador. 
O poder feminino exercido na negociação realizada durante as atividades 
no 
comércio rendeu às mulheres a capacidade para enfrentar a dominação com 
malícia e negociação. Ao longo do processo escravocrata, apenas quando 
se 
esgotavam as possibilidades de negociação, as mulheres (e também os 
homens) 
exerciam o poder com base no confronto direto, alternativa expressa nas 
fugas, rebeliões e até na eliminação física dos opressores (Reis, 1996: 
34). 
Tanto na África como no Brasil, através das atividades do comércio, as 
mulheres conseguiram acumular consideráveis quantias em dinheiro, 
conseguindo comprar sua autonomia política e sócio-econômica, bem como 
sua 
liberdade do ponto de vista civil, portanto, a possibilidade de 
expansão. 
Expressão por excelência do poder feminino de expansão, o sangue 
menstrual é 
considerado pela cultura iorubá como símbolo de fertilidade. Em 
reverência a 
esse poder, Oxalá, divindade representativa da fertilidade masculina, 
usa 
uma pena vermelha do papagaio – ekodidé. Com esse ato sombólico Oxalá 
exibe 
a idéia fulcral da cosmogonia iorubá: a complementaariedade entre o 
masculino e o feminino. Assim, no centro da mitologia está o sentido da 
reverência ao grande poder feminino representado pela divindade Oxum e 
sua 
simbologia, reatualizada cotidianamente nas comunidades de terreiro: o 
amarelo gema/ ovo fecundado; abebé/ ventre que acolhe; espelho/ 
vaidade, 
beleza jovial; água doce/ riqueza da vida; peixe/ fertilidade e 
abundância 
de filhos; coroa (adè)/ realeza; pássaro (éléiyé)/ mãe ancestral (Iyá 
mi 
Agbá), sabedoria, mistério, astúcia, sedução e poder de magia (Luz, 
2002). 
Cabe analizar o fato de que nesta tradição a indumentária, os adereços 
das 
Iabás constituem um corpo feminino mítico desterritorializado do lugar 
da 
subalternidade: corpo simbólico com adaga, arco e flecha, escudo, que 
se 
torna fundamental na constituiçao identitária. O próprio pente, 
artefato 
sacralizado utilizado por Oxum, é a expressão de uma sensualidade que 
mais 
captura do que coloca o feminino como presa. Aqui, o feminino é o 
sujeito 
desejante e instituinte, que só tem o seu poder obstaculizado pela ação 
masculina. Mais uma vez a cosmogonia iorubá nos traz elementos para 
reflexão, ao mostrar que a possibilidade de fragilização do poder 
feminino 
decorre da divisão das mulheres provocada pela razão masculina: a 
divisão de 
Obá, Oiá, Oxum e Iemanjá enfraqueceu a subversão feminina e o movimento 
feminista desencadeado pela organização da sociedade Geledé. Planos 
arbitrários e violentos, gestados na solidariedade masculina, inclusive 
com 
o uso de estupro, levaram à fragiização do poder feminino. Do mesmo 
modo, 
contemporaneamente, a falta de solidariedade entre as mulheres gera 
vantagens ao poder masculino (e certamente ao capitalismo também). 
Em pesquisa realizada com mulheres adeptas do candomblé, encontrei 
recorrentes alusões ao discurso mítico de tradiçao iorubá para explicar 
formas de conduta vinculadas a representações do poder feminino de 
transgressão e combatividade, como no excerto a seguir: “não tenho medo 
de 
nada... Sou de Obá, deusa guerreira, que anda com sua espada em punho, 
pronta pra guerrear (...) Não tem homem certo!” -  Jane, 32 anos. 
O processo de identificação com a representação mítica de um feminino 
combativo parece fundamental na construção de uma subjetividade pronta 
para 
o enfrentamento dos dilemas do cotidiano. Paralelamente, o território 
da 
comunidade de terreiro aparece como uma possibilidade de recurso 
memorial 
ético-político, de viés emancipatório. 
A participação nestes territórios pode ser considerada, então, como 
potencializadora de processos de afirmação positiva da pertença 
étnico-racial, como demonstra Jane : “na minha certidão vem ‘parda’, 
mas eu 
sou negra. Tenho consciência racial. Depois que eu participei da 
religião 
afro [ mostra uma foto em que ela aparece com trajes rituais e fios de 
conta 
identificadoras dos orixás da Casa ] é que eu aprendi a amar a minha 
cor”. 
Nessa direção, acrescente-se que é comum nos terreiros assistirmos 
mulheres 
enfeitando-se para as festas públicas; por exemplo, trançando os 
cabelos. 
Esta é uma atividade do comércio feminino de tradição iorubá, que é 
aprendida em família e, recriando a memória, reatualiza significados de 
pertença.  Trata-se de uma experiência que, nesta cultura, só se confia 
a 
amigos ou parentes (consanguíneos ou espirituais), pois que no cabelo 
“tem 
axé pessoal” e na cabeça (ori), “mora o orixá”. Assim, pelo poder 
feminino, 
se une o presente à ancestralidade, e se identifica/ revela o 
pertencimento 
étnico (Lody, 2004). 
Considerando-se o lento e constante processo de desafricanização dos 
símbolos negros e, portanto, sua desetinização, o papel do poder 
feminino de 
preservaçaõ do conjunto desses bens simbólicos legados pela tradição 
iorubá 
ganha relevo, sobretudo se pensamos, como realça Prandi (2000), que 
fora do 
campo religioso, nenhuma das instituições culturais africanas 
sobreviveu. 
Desse modo, nos territórios das comunidades de terreiro de tradição 
iorubá, 
são recriados valores, idéias e ideais. Mais do que isso, é reinventada 
uma 
etinicidade mítica resgatando uma maneira de ser e viver o feminino 
fora dos 
padrões hegemônicos da sociedade ocidental, que visa a subordinação das 
mulheres. 
É assim que, hoje, Janes, Stellas, Olgas, Beatrizes, Marias, e tantas 
outras 
vivenciam, através desta tradição, a possibilidade de produção de 
estratégias de resistência e recriação de identidades culturais, onde a 
etnia, a classe e o gênero são instâncias mediadoras do exercício do 
poder. 
É nessa direção que se coloca a importância desse tema: desvelar como o 
poder e o feminino se articulam nesses territórios negros e de que 
forma as 
mulheres são, vivem e exercem poder nesse espaço e na sociedade. 






NOTAS 

  Na concepção aqui adotada o poder refere-se ao complexo das posições 
sócio-políticas ocupadas nas quais os/as agentes sociais são capazes de 
alterar a correlação de forças sociais dominantes e obter 
reconhecimento de 
suas capacidades. 
  Entende-se representações como um conjunto de idéias, sentimentos e 
valores acerca de determinado fenômeno ou símbolo. 
  A concepção de identidade aqui expressa refere-se a um discurso de 
inclusão ou exclusão, vinculando sujeitos sociais a uma determinada 
localização ou posicionalidade na estrutura da sociedade. Relaciona-se 
a um 
complexo representacional, incluindo representação e 
auto-representação. 
Conforme define Sodré (1999: 34), o discurso da identidade liga os 
sujeitos 
a quadros de referências, bem como diz sobre o reconhecimento de um 
‘outro’ 
que classifica socialmente. Desse modo, os processos de identificação 
operam 
a partir das relações com os indivíduos, vivos e mortos. 
  Toma-se a expressão território não como espaço físico, geográfico, 
mas 
enquanto espaço sócio-político de que fazem uso determinados grupos 
para 
(re)afirmar valores e (re) construir identidades. 
  Conjunto de praticantes das religiões de matriz africana. 
  Negritude é um complexo de iniciativas que pretendem reverter o 
sentido 
atribuído a tudo aquilo que se encontra relacionado aos 
afrodescendentes e 
sua cultura, dando-lhe um sentido positivo. 
  Iyalodé é um título honorífico que relaciona a mulher ao poder 
ancestral 
feminino. 
  Mito é uma mensagem simbólica capaz de expressar os modos de pensar e 
viver de um determinado grupo social, incluindo-se as formas que os 
serem 
mantêm entre si e entre eles e o mundo. Assim, sua compreensão traz a 
possibilidade de recontrução histórica dos elementos de uma cultura. 
  Dipáspora é um termo de origem grega que significa dispersão, 
disseminação 
de um povo pelo mundo, relacionada a perseguições, como ocorreu com os 
judeus e os ciganos, ou com a escravidão, como a ocorrida com os negros 
africanos. 


Referências Bibliográficas 

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Artigos. Salvador: Corrupio, 1992 (Coleção Baianada). 

nerilsa91 wrote on Jan 5, '10
adorei o texto embora tenha tido uma criação totalmente oposta,mas tenho muita afinidade as tradições afro descendentes e gosto muito de ler a respeito.
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